1984: quando a mentira aprende a votar
João Carlos
- setembro 21, 2026
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1984, de George Orwell, embora tenha sido escrito há 78 anos, continua atual como se tivesse sido publicado pela primeira vez na última semana.
Na Oceania imaginada por Orwell, o poder não se contenta em governar os corpos. Quer governar as consciências. Não basta dizer ao cidadão o que fazer; é preciso determinar no que ele deve acreditar. O Ministério da Verdade fabrica versões convenientes do passado, a linguagem é empobrecida para limitar o pensamento e a mentira, repetida incessantemente, adquire a aparência de verdade.
No Brasil contemporâneo, especialmente durante os últimos ciclos eleitorais, assistimos à proliferação de informações falsas, conteúdos manipulados, teorias conspiratórias e narrativas fabricadas para produzir medo, indignação ou ódio. Não se trata de um fenômeno pertencente à esquerda ou à direita. A mentira não tem ideologia; tem interesse.
O cidadão que recebe uma mentira cuidadosamente construída raramente recebe a mentira com uma etiqueta dizendo: “isto é falso”. Recebe-a embrulhada em indignação, patriotismo, moralidade, medo ou indignação contra o adversário. Recebe-a acompanhada de uma fotografia, de um vídeo, de uma suposta “fonte”, de alguém que fala com a segurança de quem aparentemente sabe do que está falando. E então compartilha. Compartilha antes de pensar. Compartilha porque confirma aquilo que já queria acreditar.
Orwell compreendeu uma coisa extraordinária: quem controla a informação possui uma parte considerável do poder de controlar a realidade. Hoje, porém, existe uma diferença assustadora. Em 1984, havia um Ministério da Verdade. Nós temos milhões de pequenos ministérios da verdade particulares, cada qual instalado dentro de um telefone celular.
Cada grupo de WhatsApp possui seus especialistas. Cada rede social possui seus profetas. Cada bolha possui suas certezas. E todos parecem saber tudo. A mentira contemporânea nem sequer precisa ser perfeita. Precisa ser suficientemente plausível para despertar uma emoção antes que desperte uma dúvida. É aí que mora a verdadeira tragédia.
O problema das fake news não é apenas que elas podem eleger alguém. É que podem destruir no eleitor a capacidade de julgar por si mesmo. Quando o indivíduo deixa de perguntar “isso é verdade?” e passa a perguntar apenas “isso favorece o meu lado?”, já não estamos diante de opinião. Estamos diante de torcida.
Orwell nos lembra que uma sociedade pode perder a liberdade muito antes de perceber que a perdeu. Pode começar perdendo a capacidade de distinguir fato de propaganda. Depois, verdade de conveniência. Finalmente, pensamento próprio de pensamento emprestado.
E então acontece o impensável: o cidadão passa a defender como opinião pessoal aquilo que alguém colocou dentro de sua cabeça. O poder já não precisa mandar. Basta sugerir. O cidadão fará o restante.
O verdadeiro perigo de 1984 não é viver sob o olhar do Grande Irmão. É chegar ao ponto em que o Grande Irmão já não precise olhar.
Nós mesmos faremos o trabalho por ele.





