Que patriotismo queremos?
João Carlos
- julho 25, 2025
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Na Conferência das Américas de 2009, o então secretário de Estado de Barack Obama, John Kerry, afirmou que “a era da Doutrina Monroe terminou. A relação que vemos e a que nos esforçamos em melhorar não é uma declaração dos EUA, e sim todos os países se vendo como iguais, compartilhando responsabilidades e cooperando em segurança”, afirmou. A frase evoca explicitamente o conceito da Doutrina Monroe que já em 1823 estabelecia a América Latina como zona exclusiva de influência norte-americana. Declarada em 2 de dezembro de 1823, ela estipulava que qualquer intervenção europeia nas Américas seria vista como ameaça aos interesses dos EUA.
Já em abril de 2025, Pete Hegseth, secretário de Defesa de Donald Trump, afirmou durante entrevista à Fox News que “o governo Obama tirou os olhos da bola e deixou a China tomar toda América do Sul e Central, com sua influência econômica e cultural, fazendo acordos com governos locais de infraestrutura ruim, vigilância e endividamento. O Presidente Trump disse ‘não mais’, vamos recuperar o nosso quintal”. A invocação de Hegseth reforça como o governo de Trump adota essa visão geopolítica, considerando a América latina como uma extensão de sua esfera estratégica. No mesmo período, o Brasil intensificou sua integração com o BRICS, ampliando parcerias com China, Índia, África do Sul e União Europeia. Essa orientação foi interpretada por Washington como um desafio ao tradicional domínio norte-americano no hemisfério.
Em resposta, Trump anunciou em julho de 2025 a imposição de tarifas de 50% contra produtos brasileiros, justificando o ato como retaliação à atuação do Brasil no BRICS e aos processos judiciais envolvendo Jair Bolsonaro. Lula respondeu com firmeza, reafirmando a soberania do Brasil. O atual governo brasileiro se contrapõe claramente à linha de submissão ao eixo Estados Unidos—Ilhas Americanas, adotada no governo Bolsonaro com medidas como a concessão aos EUA da exploração da base de Alcântara, no Maranhão; a isenção de vistos para turistas do país sem reciprocidade para brasileiros; e o fato de o Brasil ter abdicado do status de país em desenvolvimento nas negociações junto à Organização Mundial do Comércio (OMC), cedendo aos interesses dos EUA. Bolsonaro, inclusive, chegou a bater continência para a bandeira norte-americana.
A definição de patriotismo, hoje, passa pelo modo como o Brasil se posiciona no mundo: reiterar sua autonomia ou se alinhar passivamente aos interesses norte-americanos cedendo muito e ganhando pouco? Queremos ser “quintal” de outra potência? E mais, seria patriota alguém que faz articulações internacionais contra o próprio país? Com certeza, dá pra usar, pelo menos, as quatro últimas letras da palavra patriota na definição de tal sujeito.





