Luciano de Assis

Na Pior em Paris e Londres — George Orwell e o laboratório da miséria

  • agosto 22, 2025
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Na Pior em Paris e Londres — George Orwell e o laboratório da miséria

Pouco lembrado diante da popularidade de A Revolução dos Bichos (1945) e 1984 (1949), o primeiro livro de George Orwell, Na Pior em Paris e Londres (1933), é talvez o mais essencial para compreender a gênese de sua obra. Nele, não encontramos a distopia alegórica ou o realismo político explícito, mas uma experiência quase etnográfica: o autor, deliberadamente, se insere nas camadas mais baixas da sociedade europeia do início do século XX, convivendo com a fome, os subempregos e a mendicância. O resultado é um testemunho cru e incisivo, que funciona como laboratório de sua futura escrita
O livro não é ficção, tampouco apenas autobiografia. Trata-se de um híbrido — relato documental, diário pessoal e análise social. Orwell adota um estilo objetivo, desprovido de ornamentos, mas profundamente expressivo. Sua prosa é clara, quase jornalística, marcada por descrições minuciosas do cotidiano: o cheiro das cozinhas de hotéis em Paris, as longas filas para conseguir um prato de sopa em Londres, o silêncio pesado dos abrigos noturnos.
Essa clareza estilística é a arma de Orwell contra a indiferença social. Em vez de teorizar a pobreza, ele a mostra em sua materialidade brutal. Assim, o autor cria um tipo de literatura que está a meio caminho entre o ensaio sociológico e a narrativa realista, antecipando a escrita engajada que o tornaria célebre.
Orwell não escreve apenas para registrar a miséria, mas para desconstruir os preconceitos da classe média em relação aos pobres. Ao mergulhar voluntariamente nesse universo, ele revela que a pobreza não é uma escolha moral, mas uma condição estrutural. A fome, o desemprego e a precariedade não são sinais de falha individual, mas de um sistema econômico que condena milhares à exclusão.
Nesse sentido, Na Pior em Paris e Londres já contém a semente de sua crítica ao autoritarismo e à exploração. Se em suas obras posteriores Orwell analisaria as formas de opressão política e ideológica, aqui ele denuncia a opressão silenciosa do capitalismo moderno — aquela que mata lentamente pela privação material.
Quase um século depois, a leitura continua perturbadora. Em um mundo em que a desigualdade social se agrava e a invisibilidade da pobreza persiste, as páginas de Orwell parecem atuais. Ele nos obriga a olhar de frente aquilo que preferimos ignorar: a vida daqueles que sobrevivem às margens da sociedade.
Na Pior em Paris e Londres é mais que um relato pessoal: é um manifesto ético. O jovem Orwell, ainda em busca de sua voz, encontrou na experiência da miséria o fundamento de sua obra: a convicção de que a literatura deve ser, antes de tudo, um ato de testemunho e de denúncia. Se suas distopias se tornaram universais por revelarem os perigos do totalitarismo, foi aqui, entre cozinhas fétidas e abrigos superlotados, que nasceu o escritor comprometido com a verdade e com os marginalizados.

Sobre o autor: George Orwell, cujo nome verdadeiro era Eric Arthur Blair, adotou o pseudônimo para separar sua vida pessoal da sua carreira literária e para evitar que sua família soubesse que ele havia experimentado a pobreza, conforme descrito em seu livro “Na Pior em Paris e Londres”. Além disso, o nome “George Orwell” soava mais adequado para um autor de respeito do que “Eric Blair”.
Eric Blair sentia que sua família, especialmente sua mãe, não aprovaria a exposição de sua experiência de pobreza em seu primeiro livro. Usar um pseudônimo permitiu que ele mantivesse sua vida pessoal separada de suas publicações.
Ele considerava que “Eric” não era um nome adequado para um escritor de prestígio. “George Orwell” soava mais forte e adequado para a imagem que ele queria projetar como autor. O nome “George” foi escolhido em homenagem ao santo padroeiro da Inglaterra, São Jorge, enquanto “Orwell” foi inspirado no rio Orwell, um local que ele apreciava na região de Suffolk.