Wilker Procópio

Pau de arara para os outros, direitos humanos pra mim. Tá ok?

  • agosto 22, 2025
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Pau de arara para os outros, direitos humanos pra mim. Tá ok?

Em 1999, Jair Messias Bolsonaro, então deputado federal, resolveu dar sua contribuição brilhante ao debate democrático. Ao comentar a recusa do economista Chico Lopes, ex-presidente do Banco Central, em depor à CPI dos Bancos, Bolsonaro saiu-se com esta pérola imortal: “Dá porrada no Chico Lopes. Eu até sou favorável que a CPI, no caso do Chico Lopes, tivesse pau de arara lá. Ele merecia isso: pau de arara. Funciona! Eu sou favorável à tortura, tu sabe disso. E o povo é favorável a isso também.”
Veja bem: tortura não como figura de linguagem, não como metáfora infeliz, mas como método legítimo de investigação. Pau de arara, para ele, era uma solução institucional. E essa figura agora posa de vítima da “ditadura” do Supremo Tribunal Federal. Coitadinho, ele e seu filho, que usa camisa do torturador Ustra, pedindo respeito aos direitos humanos. A mesma criatura que passou a vida inteira cuspindo ódio contra quem defendia os tais “direitos dos manos”. Pois é, parece que quando a conta chega, a música muda.
E eis que entra em cena seu fiel escudeiro e pregador preferido do púlpito-política-show, Silas Malafaia. O homem que transformou o Evangelho em palanque e a Bíblia em panfleto eleitoral. Agora, entre gritos e vídeos indignados, Malafaia descobriu que estamos numa ditadura. Sim, isso mesmo: para ele, vivemos numa ditadura, porque seu candidato de estimação responde pelos atos golpistas que incentivou e porque “manifestantes” – aqueles que depredaram os prédios da República no 8 de janeiro – não estão sendo tratados como se estivessem num piquenique de igreja.
Curioso: para Bolsonaro, o pau de arara era democrático. Mas quando a lei prende quem tenta destruir o Estado de Direito, aí é tirania. E Malafaia aparece para ungir e respaldar essa narrativa, supostamente em nome de Deus, da pátria e da família.
Família? Vinda de quem nunca se importou com o estrago da internet tóxica sobre as crianças, mas defende “liberdade” irrestrita para espalhar fake news. Pátria? Essa turma que idolatra mais os EUA do que o próprio Brasil. Deus? O mesmo Deus usado como escudo por um pastor boca suja para justificar preconceito, intolerância e o ódio que nos trouxe a polarização em que estamos hoje? Ah, me poupe.
É tanta incoerência que chega a ser cômico – se não fosse trágico. Malafaia, que vive apontando o dedo contra quem pensa diferente, agora se arvora em defensor da democracia. Bolsonaro, que passou décadas pregando violência, agora pede direitos humanos para si e para sua turba depredadora. Se bem que os áudios que PF recuperou em seu celular apreendido mostram uma realidade triste para os “manifestantes”, a de que a anistia que Bolsonaro defende é a dele.
É o velho ditado: quem sempre pregou a forca, na hora que o nó aperta, clama por compaixão. Deus nos livre dessa gente.