Luciano de Assis

Depois do Fim

  • outubro 30, 2025
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Depois do Fim

Publicado em 2008, O Quase Fim do Mundo, do escritor angolano Pepetela, é uma das obras mais ousadas e filosóficas de sua carreira. Conhecido por transformar a história e a política angolanas em literatura crítica, o autor aqui expande seu olhar para a totalidade da humanidade. Com uma narrativa de caráter apocalíptico e alegórico, ele questiona a essência do ser humano e sua capacidade — ou incapacidade — de reconstruir o mundo após a destruição total.
A trama tem início quando, de forma misteriosa e súbita, toda a população da Terra morre. Apenas algumas dezenas de pessoas sobrevivem, despertando na cidade angolana de Benguela, completamente isoladas e sem explicações para o que ocorreu. São homens e mulheres de diferentes origens e nacionalidades — africanos, europeus, asiáticos, latino-americanos — que precisam aprender a coexistir e sobreviver em meio às ruínas de uma civilização extinta.
Pepetela não oferece respostas sobre a causa do cataclismo. O foco da narrativa é observar o comportamento humano diante da possibilidade de um recomeço. Os sobreviventes carregam consigo as marcas de um passado de egoísmo, intolerância e ambição. Mesmo diante do colapso da civilização, continuam reproduzindo conflitos de poder, preconceitos e disputas ideológicas. O autor, assim, sugere que o verdadeiro “fim do mundo” talvez não tenha sido físico, mas moral.
O romance é estruturado como uma parábola. O apocalipse serve de metáfora para a falência das utopias políticas, religiosas e econômicas que sustentaram o mundo moderno. O tom é de profunda reflexão: se a humanidade tivesse uma segunda chance, seria capaz de aprender com os erros do passado ou cairia novamente nas mesmas armadilhas? A resposta, insinuada com ironia e melancolia, é ambígua. Pepetela expõe o paradoxo entre o desejo de reconstrução e a tendência autodestrutiva do ser humano.
A linguagem do autor é densa e simbólica, alternando momentos de lirismo com passagens de crítica social. As descrições da paisagem angolana — ora árida, ora exuberante — funcionam como contraponto à decadência moral dos personagens. A natureza, que resiste silenciosamente, torna-se uma espécie de testemunha da arrogância humana e da possibilidade de renovação.
Entre os temas que atravessam o livro estão a convivência multicultural, a espiritualidade, a ciência, a ecologia e o poder. Pepetela, que sempre refletiu sobre o destino de Angola, aqui amplia sua crítica para o destino da humanidade. Seu apocalipse é universal, mas visto a partir de uma perspectiva africana — o que confere à obra originalidade e força simbólica.
O Quase Fim do Mundo é, portanto, muito mais do que um romance de ficção científica. É uma meditação sobre o homem, suas contradições e sua eterna tentativa de recomeçar. Ao terminar a leitura, o leitor é deixado com uma inquietação: talvez o verdadeiro apocalipse não precise vir do céu, mas já esteja dentro de nós, na incapacidade de aprender com a própria história.