Discutir as mudanças climáticas não é moda, é sobrevivência
João Carlos
- outubro 30, 2025
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Os assuntos mudança climática, aquecimento global, sustentabilidade, biodiversidade e outros tantos sobre os quais se debruçam Ongs, cientistas, ecologistas e defensores da natureza mundo afora, serão o foco absoluto da COP 30. Disso ninguém duvida. No entanto, longe da promessa de ser uma festa ou um encontro de poética passividade, a Conferência (que acontece entre os dias 10 e 21 de novembro em Belém, no Pará) deve esperar também discussões acaloradas, disputas, confrontos e enfrentamentos dos mais cabeludos. Não só porque o local será endereço de milhares de mentes antagônicas (no que se trata da visão e das verdades defendidas sobre a proteção planetária), mas porque, para lá dos eventuais acordos, estarão as históricas prioridades de cada país, de cada autoridade: enquanto uns priorizam a economia, outros defenderão os impactos sociais; enquanto uns estarão dispostos a fazer concessões, outros tentarão impor suas demandas.
Entre os assuntos cabeludos, que devem constar das discussões (oficiais e paralelas) do evento, com certeza será a recente autorização do Ibama para a Petrobras fazer pesquisa exploratória na Bacia da Foz do Rio Amazonas (chamada Margem Equatorial).
Dada a quantidade de opiniões contrárias e favoráveis à exploração do petróleo no local (que ainda estará longe de acontecer – a autorização foi apenas para a pesquisa), o assunto deve se mostrar espinhoso e capaz de aflorar os ânimos durante a COP.
Algumas entidades ambientalistas já deram o grito e dizem que vão à justiça contra a eventual exploração. Lideranças apontam essa autorização como uma sabotagem à COP 30 e afirmam que o país entrará na conferência já trabalhando contra a proteção ambiental.
O problema é que sabidamente o Brasil é em termos mundiais líder na proteção ambiental e, para alguns, essa simples autorização soa como uma falta de compromisso justamente com uma das maiores pautas: a busca e o investimento em transição energética, em matrizes energéticas menos prejudiciais ao meio ambiente. O que, claro, o petróleo não se encaixa.
Já os que defendem a exploração, argumentam que ela se justifica pelo fato de que bem ao lado de onde o Brasil pretende prospectar, a Guiana já vem, desde 2019, extraindo petróleo; tendo atingido, por isso, a maior expansão econômica do mundo.
Outro argumento contra os mais arraigados defensores do meio ambiente e da biodiversidade é que o local em pauta está há centenas de quilômetros da foz do Amazonas e que, ao contrário do que dizem os ecologistas, a exploração do petróleo ali não representará risco aos mananciais. Há controvérsias.
Não se duvida que a exploração pode impulsionar o desenvolvimento regional e nacional. Beneficiando especialmente os estados do Amapá, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte: pelo menos três destes sabidamente pobres e de tímido desenvolvimento. Mas, a que preço, se perguntam os defensores do clima e do planeta? Eles lembram que a queima de petróleo emite gases de efeito estufa e contribuem para o aquecimento global e as mudanças climáticas. Portanto, a exploração de novas reservas petrolíferas vai na contramão dos esforços globais de transição energética. Sem contar, segundo eles, que um eventual vazamento afetaria a vida marinha, a pesca e as comunidades locais, que dependem dos recursos naturais da região para sua subsistência.
Segundo alguns, o mundo não pode mais se valer do luxo do tempo, pois nunca de um ano pro outro tivemos uma aceleração tão grande de gases na atmosfera.
Como bem declarou o presidente da COP30, André Aranha Correa do Lago, “À medida que a era dos alertas dá lugar à era das consequências, a humanidade se depara com uma verdade profunda: a adaptação climática deixou de ser uma escolha que sucede a mitigação; ela é a primeira parte de nossa sobrevivência…. …A COP30 será a COP da verdade, na qual seremos postos à prova em nossa capacidade de aproximar o regime climático da vida cotidiana das pessoas”.
E quando discutimos mudanças climáticas e proteção do planeta, precisamos trazer essa discussão, estas decisões e seus efeitos para perto da população, a fim de promover o entendimento destas medidas e decisões. Bem como os perigos que envolvem a não discussão dessa pauta. É preciso ser dito (e é importante ser entendido) que diversos problemas enfrentados pela população (especialmente pelos mais pobres) são de alguma forma provocados ou influenciados pela ausência de medidas efetivas no controle das mudanças climáticas. Dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento revelam que 1,1 bilhão de pessoas, em 109 países, vivem em pobreza multidimensional aguda – mais da metade delas crianças. E que 887 milhões dessas pessoas vivem em regiões que já enfrentam ao menos um grande risco climático; 309 milhões enfrentam três ou mais riscos simultaneamente. O importante é entender que há vidas humanas por trás desses números – pequenos e microempreendedores perdendo seus negócios e sonhos, famílias deslocadas por enchentes, agricultores vendo seus campos secarem e crianças caminhando quilômetros em busca de água.
Proteger o planeta e nos proteger do efeitos deletérios provocados pela sociedade é bem mais do que uma tendência ou uma moda: é questão de sobrevivência.





