Política

O Estado capturado: como o crime organizado se infiltrou na política do Rio

  • outubro 30, 2025
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O Estado capturado: como o crime organizado se infiltrou na política do Rio

As conexões entre o poder público e o crime organizado voltaram a expor o submundo da política fluminense. Nas últimas décadas, políticos, ex-policiais e servidores foram flagrados atuando lado a lado com milícias e facções como o Comando Vermelho (CV).

A operação policial mais letal do país, denominada Operação Contenção, realizada nos complexos da Penha e do Alemão, na terça-feira (28), deixou 121 mortos, inclusive quatro policiais, e teve como alvo o traficante Edgar Alves Andrade, o “Doca” ou “Urso”, chefe do CV na região que segue foragido. Mesmo com o saldo de mortes, o governador Cláudio Castro (PL) classificou a ação como um “sucesso”.

Pouco antes, uma megaoperação das polícias Federal e Civil havia prendido o deputado estadual Thiego Raimundo de Oliveira Santos, o TH Joias, acusado de ser um dos principais articuladores do CV dentro da política fluminense. Segundo o Ministério Público Federal, ele lavava dinheiro do tráfico, intermediava a compra de armas e munições e repassava informações privilegiadas às facções. Também foram detidos um delegado da PF, três PMs e aliados como Luiz Eduardo Gonçalves e Alessandro Pitombeira Carracena, ex-secretário de Marcelo Crivella e de Cláudio Castro.

Casos como o de TH Joias repetem um padrão antigo no Rio: o avanço de milícias formadas por ex-policiais que conquistaram poder político. Entre os exemplos históricos estão o ex-vereador Jerônimo Guimarães Filho (Jerominho) e o ex-deputado Natalino Guimarães, fundadores da milícia Liga da Justiça, além do ex-deputado Jorge Babu, todos apontados pela CPI das Milícias de 2008, presidida por Marcelo Freixo (PSOL).

Outros nomes se destacam nesse enredo: o ex-vereador Josinaldo da Cruz (Nadinho), suspeito de ordenar assassinatos em Rio das Pedras; o ex-vereador Luiz André Ferreira (Deco), acusado de liderar milicianos na Praça Seca; e o ex-sargento e vereador Cristiano Girão, que controlava a Gardênia Azul e foi condenado por chefiar grupos paramilitares.

A teia de crimes e poder se estende até os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, presos em 2024 por suspeita de mandarem matar a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes. Os ex-policiais militares Ronnie Lessa e Élcio Queiroz foram presos, em março de 2019, como executores. Ambos admitiram a culpa. Segundo a Polícia Federal, o crime teve motivação política e relação direta com disputas por territórios dominados por milicianos na Zona Oeste.

De Jerominho a TH Joias, de Deco aos Brazão, os casos revelam uma ferida aberta: o crime organizado no Rio há muito tempo não se limita às favelas , ele ocupa cargos, gabinetes e palanques.