Wilker Procópio

São Miguel Arcanjo contra a besta e seus filhotes

  • dezembro 19, 2025
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São Miguel Arcanjo contra a besta e seus filhotes

A Arquidiocese de São Paulo determinou uma auditoria na paróquia São Miguel Arcanjo e também a suspensão das transmissões das missas do padre Júlio Lancelotti, pároco responsável, há mais de 40 anos, pelas atividades do local. Lancelotti também está impedido de usar as redes sociais e pode ainda ser afastado de suas funções. O fato foi comunicado no domingo (14) pelo padre.

A punição acontece um mês depois da denúncia do deputado Junio Amaral (PL-MG) ao Vaticano, o que inclui um dossiê com mais de 200 páginas, que a equipe do parlamentar, em seu perfil no Instagram, se propõe a disponibilizar para os interessados.

Chega a ser escandalizante o fato da denúncia desse deputado se dar, à primeira vista, simplesmente pelo posicionamento político de Lancelotti, sempre alinhado à esquerda. Um alinhamento que se traduz no trabalho diário, realizado há anos, com a população de rua, na luta por comida, por esperança e dignidade em um país onde a desigualdade social é gritante.

Prefiro acreditar que por trás dessa denúncia há o interesse de gente grande, que lucra com a especulação imobiliária na região da paróquia. Gente que o padre incomoda quando distribui comida aos sem teto, pessoas cuja presença “desvaloriza” a área aos olhos dos especuladores. Mesmo isso sendo ruim, seria pior a denúncia partir exclusivamente pelo posicionamento político do parlamentar. Evangélico, ele cita versículos em suas redes sociais, mas, na prática, ataca o irmão em Cristo quando esse se levanta para bradar contra a injustiça social e quando alimenta aqueles que precisam.

É triste ver que grande parcela dos cristãos, inclusive os que estão inseridos na política, se identificam muito mais com o discurso de intolerância do que com o amor, o perdão e a caridade. Chega a ser paradoxal (e até ridículo) que alguém se diga cristão e apoie gente que exalta reiteradamente a tortura e a morte de outros seres humanos.

A religião instrumentalizada como recurso político não começou com o bolsonarismo, mas é inegável que este trouxe um componente mais agressivo ao jogo. É com a ascensão do clã Bolsonaro e de seus gurus, Olavo de Carvalho e Silas Malafaia, que a direita passa a querer não apenas derrotar seus inimigos políticos, mas destruí-los. Basta observar como se comunicava Olavo, com todos os seus impropérios. Da mesma forma o fazem Jair Bolsonaro e Malafaia, sempre no ataque, munidos das mais desvairadas palavras de baixo calão. E nisso vem a paranoia de seus apoiadores, pois o inimigo está dado, é a esquerda e todos os que se associam a ela, trazendo o aborto, as legalização das drogas e a farra da bandidagem. A pauta de costumes nunca esteve tão em alta (e a caridade tão desprestigiada)

A guerra é santa. O lema está dado:  D(eu)s acima de tudo. Brazil acima de todos (os mortos pela covid-19).

3 E vi uma de suas cabeças como ferida de morte, e a sua chaga mortal foi curada; e toda a terra se maravilhou após a besta. 4 E adoraram o dragão que deu à besta o seu poder; e adoraram a besta, dizendo: Quem é semelhante à besta? Quem poderá batalhar contra ela? 5 E foi-lhe dada uma boca para proferir grandes coisas e blasfêmias

Apocalipse 13 3:5