Wilker Procópio

A política como espetáculo e o Brasil como palco

  • janeiro 30, 2026
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A política como espetáculo e o Brasil como palco

Publicado em 1967, A Sociedade do Espetáculo, do pensador francês Guy Debord, é um livro que, infelizmente, torna-se cada vez mais atual. Com o advento das redes sociais, a vida passa a ser muito mais encenada e assistida do que vivida. Na política, isso não poderia ser diferente, uma vez que agora todos estamos conectados e sob o jugo do algoritmo. Este, nada mais é do que o conjunto de regras e cálculos que as plataformas usam para organizar e priorizar o conteúdo que aparece no seu feed, decidindo o que é mais relevante e atrativo para você, com base em seus interesses e comportamento (curtidas, comentários, compartilhamentos), visando manter o usuário engajado na plataforma por mais tempo. E é essa curadoria que forma as famigeradas bolhas.

As bolhas são o isolamento intelectual que ocorre quando os algoritmos separam o usuário de informações divergentes, entregando apenas conteúdos que reforçam suas crenças, gostos e visões de mundo. Se o usuário interage com uma certa vertente ideológica, o algoritmo entende que aquilo é de seu interesse e passa a entregar mais conteúdos similares, criando uma espécie de câmara de eco, que reverbera apenas aquilo em que o sujeito acredita e concorda. O algoritmo oculta perspectivas diferentes, pois entende que elas podem gerar desinteresse e levar o usuário a sair da rede social. E as redes não querem que as pessoas se desconectem, pois elas têm que entregar os anúncios pagos. É simples.

Assim, quanto mais tempo online, maior a chance de o usuário acreditar que sua visão de mundo é a única ou a mais comum e correta, pois sua bolha reflete apenas seus próprios gostos. A polarização em que vivemos se deve às bolhas, que facilitam a disseminação de informações polarizadas e dificultam a identificação de desinformações, já que o usuário não é exposto ao contraditório. A falta de acesso a opiniões diversas limita o pensamento crítico e dificulta o debate social. Isso nos traz ao problema inicial, a espetacularização.

Se olharmos para o Brasil recente, a política institucional parece cada vez mais subordinada a esse regime do espetáculo. A caminhada de Nikolas Ferreira, por exemplo, não comunica um programa, um projeto ou uma proposta concreta. Comunica uma narrativa de perseguição e missão, um roteiro calculado para circular nas redes, como tudo o que o Nikolas faz, incluindo os vídeos do pix. Lembremos das motociatas do Jair e da megaoperação contenção no Rio. Tudo agora é estética, espetáculo, com vistas ao engajamento. Não à toa, Nikolas é hoje o político mais influente do Brasil, dominando as redes. Infelizmente, é nesse terreno que as próximas eleições tendem a se dar: não como disputa de projetos de país, mas como uma guerra aberta pelo imaginário (passional) do eleitorado. Tempos sombrios.