Carlinhos Colé

A desafronta do excesso

  • maio 29, 2026
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A desafronta do excesso

Algumas palavras envelhecem com charme, tornando-se mais saborosas pelo desuso. “Fastio”, por exemplo. Já quase não a encontro nas conversas, mas continua exata, elegante e necessária. Fastio não é simplesmente desgosto. É um cansaço da fartura. Uma indisposição provocada pelo ter. É quando aquilo que antes nos fazia brilhar os olhos passa a nos entediar. O fastio nasce da superabundância das coisas, creio. É a desafronta soturna do excesso.

Penso nisso enquanto mastigo um pão francês qualquer, desses comprados sem cerimônia, em padaria de esquina. E me lembro de quando o pão tinha importância. Na minha infância, pão fresco era acontecimento. O cheiro atravessava a rua e precedia o padeiro. Havia uma reverência no ato de cortá-lo ainda quente, deixando escapar aquele vapor glorioso. Hoje há pão demais, variedades demais, recheios demais, nomes franceses demais. O pão continua bom, mas a espera fazia parte da receita.

Com as músicas, os filmes, os livros, acontece o mesmo. Lembro-me de quando, para ouvir um disco novo da minha banda preferida, eu precisava viajar até a cidade vizinha, porque aqui não havia loja de discos. O ritual começava antes da compra: o dinheiro contado, a expectativa, o ônibus, o vinil sendo retirado da capa como se fosse um grande achado. Em casa, a audição solene, sem distrações, observando fotografias granuladas dos músicos com uma atenção quase religiosa, lendo o encarte, decorando letras, pegando as cifras para o violão na banca de revista.

Hoje qualquer canção do planeta cabe no bolso. Tenho acesso instantâneo a milhões de músicas, mas escuto cada vez menos. Antes ouvia um disco inteiro; hoje pulo faixas em segundos, como quem experimenta o mundo em conta-gotas.

Ainda sobre as inúmeras manifestações do fastio, me ocorre o da nudez feminina, assunto que abordo aqui com o respeito que a memória merece. Ansiada pela raridade. Surgia discretamente numa revista “de negócios”, adquirida com o constrangimento de quem parecia fazer uma compra clandestina de dinamites. Com todo o aparato psicológico: a curiosidade, a culpa, o risco de alguém aparecer justamente na página errada.

Hoje o mundo aboliu o mistério. A nudez tornou-se tão disponível que deixou de encantar, quebrando a magia, o mistério. A famosa revista deixou de publicar suas edições históricas, alegando falta de interesse. Descobriram tarde o que os poetas sabem há séculos: o desejo precisa de distância. Certas coisas vivem melhor atrás de uma cortina.

Mas nenhum fastio me parece tão entristecedor quanto o fastio de pessoas. Quando sem explicação, determinado indivíduo, com quem tenho de conviver por alguma razão, se me atravessa na garganta ─ feito a fruta no pomo de adão ─ e permanece em alta pelo entorno, sem jamais se tornar agradável. Talvez possua qualidades objetivas, que reconheço, mas que simplesmente não me desce pelo espírito. Para explicar isso, recorro sempre ao maracujá.

O maracujá é praticamente o santo padroeiro das frutas. Serve para sucos, tortas, mousses, bolos, sorvetes, vitaminas, geleias, licores, sabonetes, xampus e, imagino, daqui a pouco, também para combustível de foguetes. É bonito, cheiroso, refrescante, rico em vitaminas, calmante natural, benéfico à saúde e unanimidade nacional.

Pois eu não suporto maracujá.

Reconheço suas virtudes com honestidade cristã, mas basta o cheiro para meu entusiasmo se arrefecer. Não tenho nada contra o maracujá em si. Desejo-lhe longa vida e prosperidade agrícola. Apenas não quero proximidade.

Com relação a uma ou outra pessoa me ocorre isso também. Não é culpa de ninguém, imagino. Deve ser uma questão orgânica. Pode ser que seja inteligente, gentil, útil, admirada pela sociedade, mas me traz o mesmo prazer de um copo de suco de maracujá morno às três da tarde.

O fastio é o preço inevitável da abundância. A escassez temperava o mundo. A felicidade, no fim das contas, talvez dependa menos do que já possuímos do que daquilo que ainda desejamos alcançar.