Aprendendo com as figurinhas da Copa
João Carlos
- agosto 18, 2026
- 3 min read
A Copa do Mundo sempre nos oferece histórias que acontecem dentro das quatro linhas e outras, curiosamente, acontecem bem longe dos estádios. Neste ano, as figurinhas voltaram a ocupar lugar de destaque, mas, junto com elas, vieram importantes lições sobre educação, cidadania e valores.
Completar um álbum nunca foi apenas colar figurinhas. É aprender a esperar, a lidar com a frustração de encontrar mais uma repetida, a negociar trocas, a persistir quando falta justamente aquela última peça. A verdadeira conquista nunca esteve apenas no álbum completo, mas em todo o caminho percorrido até ele.
Será que estamos ensinando nossas crianças a colecionar figurinhas ou a colecionar valores?
Nesta Copa, a tecnologia acrescentou um novo ingrediente a essa experiência. Hoje, qualquer pessoa pode usar a inteligência artificial para criar uma figurinha personalizada em poucos segundos. Também circulam pela internet arquivos com todas as figurinhas do álbum, prontas para impressão. Sem abrir um único pacote. Sem procurar a figurinha rara. Sem trocar. Sem esperar.
A tecnologia é extraordinária e veio para facilitar nossa vida. Mas ela também nos convida a uma reflexão: quando eliminamos todo o percurso, o que realmente estamos conquistando?
Enquanto isso, muitas escolas viveram uma cena silenciosa e bonita. Crianças que não puderam comprar o álbum oficial decidiram produzir o próprio. Desenharam jogadores, pintaram bandeiras, inventaram seleções, confeccionaram capas e organizaram páginas. Fizeram da falta de recursos uma oportunidade para criar. Talvez essa seja uma das mais belas lições desta Copa: alguns escolheram o atalho; outros escolheram a criatividade.
Mas foi outro episódio que mais chamou minha atenção. Supermercados de várias cidades registraram pessoas arrancando os rótulos das garrafas de refrigerante para retirar as figurinhas escondidas na promoção. Produtos foram danificados, mercadorias precisaram ser descartadas e comerciantes acumularam prejuízos. O problema, porém, vai muito além do prejuízo financeiro. É imaginar que muitos desses adultos talvez estivessem acompanhados de seus filhos. Que aula foi ensinada naquele momento?
Costumamos acreditar que a educação acontece apenas na escola. Não acontece. Ela também está na fila do supermercado, no trânsito, nas redes sociais e nas pequenas escolhas do cotidiano. As crianças aprendem muito mais observando o comportamento dos adultos do que ouvindo nossos discursos sobre honestidade e respeito.
Vivemos uma época em que tudo parece precisar ser imediato. Queremos respostas instantâneas, resultados rápidos, sucesso sem esforço, álbuns completos sem abrir pacotinhos e soluções prontas para qualquer desafio. Será que não estamos confundindo facilidade com formação?
Educar nunca foi ensinar apenas conteúdos. Educar é mostrar que algumas conquistas exigem tempo, disciplina, perseverança e ética. Que nem todo desejo precisa ser satisfeito imediatamente. Que nem todo caminho mais curto é o melhor caminho.
No fundo, as figurinhas desta Copa talvez estejam nos ensinando muito mais sobre nós do que sobre futebol. Porque, enquanto o álbum um dia será guardado em uma estante, nossos filhos continuarão guardando, por muitos anos, as lembranças das escolhas que fizemos diante deles. Quando eles se lembrarem desta Copa, recordarão das figurinhas que colaram… ou dos valores que aprenderam observando os adultos?
No fim das contas, o maior álbum que estamos completando não é o da Copa do Mundo.
É o álbum da cidadania. E esse não se completa com dinheiro, inteligência artificial, arquivos prontos ou atalhos. Completa-se, todos os dias, uma atitude de cada vez.





