Luciano de Assis

O eleitor diante dos novos “príncipes”

  • agosto 18, 2026
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O eleitor diante dos novos “príncipes”

Começam as campanhas eleitorais e, com elas, a política invade nossas casas, celulares, conversas e, sobretudo, nossas emoções. Promessas se multiplicam, abraços aparecem nas fotografias e candidatos descobrem uma extraordinária intimidade com os problemas do cidadão comum. É justamente nesse momento que convém reler Maquiavel.

Em O Príncipe, Nicolau Maquiavel não ensinou simplesmente como ser mau. Procurou compreender como o poder funciona, como é conquistado e conservado e como os governantes agem quando seus interesses entram em conflito com as circunstâncias. É essa honestidade desconfortável que mantém sua obra atual.

O problema não está em o político ser estratégico — política exige estratégia. O perigo começa quando ela é usada para transformar o eleitor em instrumento. O cidadão comum, que trabalha, paga impostos, cuida da família e muitas vezes acompanha as eleições superficialmente, encontra-se vulnerável diante de palavras, imagens, símbolos e emoções cuidadosamente explorados.

A primeira defesa do eleitor é não acreditar imediatamente naquilo que deseja ouvir. O primeiro sinal de alerta é a promessa fácil. Problemas como saúde, segurança, emprego, educação e transporte são complexos, mas o discurso eleitoral frequentemente oferece soluções rápidas. Governar, porém, não é apenas prometer: é estabelecer prioridades, administrar recursos e assumir consequências.

Por isso, diante de qualquer promessa, algumas perguntas são fundamentais: como será feita? Quanto custará? De onde virão os recursos? Qual será o prazo? Outro mecanismo frequente é a manipulação emocional. O candidato pode tentar criar inimigos absolutos, dividindo a sociedade entre “bons” e “maus”. O medo da violência, da pobreza, do adversário ou de mudanças mobiliza rapidamente e pode reduzir nossa capacidade de avaliação. Nesse momento, é preciso respirar e perguntar: isso é verdade?

Também é necessário desconfiar da desinformação. Ela nem sempre aparece como uma grande mentira: pode ser uma frase retirada do contexto, um número sem explicação, uma fotografia antiga ou uma opinião apresentada como fato. Antes de compartilhar uma acusação ou acreditar em uma informação impressionante, é fundamental verificar sua fonte.

Há ainda a troca de favores por apoio. Quando um benefício pessoal é oferecido em troca de gratidão eleitoral, o voto deixa de ser uma escolha sobre o futuro coletivo e passa a funcionar como moeda de troca. Maquiavel pode, portanto, ser lido não como um manual para políticos, mas como um convite à vigilância dos cidadãos. Se o poder conhece a natureza humana, o eleitor também precisa conhecê-la e reconhecer quando suas esperanças estão sendo utilizadas para influenciar seu julgamento.

A melhor defesa contra os novos príncipes não é a ingenuidade nem o cinismo, mas a atenção: observar menos o espetáculo e mais o histórico; menos o discurso e mais os resultados; menos a promessa e mais o método. As campanhas continuarão cada vez mais sofisticadas e emocionais. Caberá ao eleitor fazer sua parte.

Porque a democracia não termina quando depositamos o voto na urna. É ali que começa a responsabilidade. E talvez a melhor maneira de enfrentar os novos príncipes seja não permitir que encontrem súditos onde deveriam encontrar cidadãos.