Luciano de Assis

Antes de escolher seus candidatos, leia Sócrates

  • agosto 24, 2026
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Antes de escolher seus candidatos, leia Sócrates

Em tempos de eleição, somos convidados a escolher. Recebemos promessas, discursos, opiniões, acusações, vídeos, manchetes e mensagens que chegam de todos os lados. Nunca tivemos tanto acesso à informação. E, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil distinguir informação de manipulação.

É justamente por isso que um livro escrito há quase 2.500 anos pode ter algo importante a nos dizer.

Em 399 a.C., o filósofo Sócrates foi levado a julgamento em Atenas. Acusado de corromper a juventude e de não respeitar os deuses da cidade, acabou condenado à morte. Platão, seu discípulo, registrou sua defesa na obra que conhecemos como Apologia de Sócrates.

Sócrates não era um homem poderoso. Não ocupava cargo importante, não comandava exércitos e não possuía riquezas. Seu instrumento era outro: a pergunta.

Ele perguntava. Questionava aquilo que todos pareciam aceitar como verdade. Conversava com políticos, poetas e homens considerados sábios e procurava descobrir se realmente sabiam aquilo que diziam saber.

Talvez esteja aí uma das grandes lições que esse pequeno livro pode oferecer ao cidadão de hoje. Uma sociedade não se torna mais preparada apenas porque possui muita informação. Ela se torna mais preparada quando seus cidadãos aprendem a pensar sobre aquilo que recebem.

Ler é uma forma de defesa. Quem lê amplia o vocabulário, conhece outras épocas, encontra pensamentos diferentes, aprende a reconhecer argumentos e, principalmente, desenvolve a capacidade de fazer perguntas. Quem lê não fica necessariamente mais inteligente. Fica, porém, mais difícil de enganar. E isso interessa profundamente à vida pública.

Não precisamos concordar uns com os outros. Não precisamos pensar da mesma maneira. Uma sociedade livre é justamente aquela em que diferentes ideias podem existir e ser discutidas. Mas precisamos desenvolver a capacidade de ouvir, questionar, verificar e refletir antes de acreditar e antes de repetir.

Sócrates nos ensina algo que permanece atual: não devemos ter medo de reconhecer aquilo que não sabemos. O conhecimento começa justamente quando abandonamos a certeza de que já sabemos tudo.

Neste período eleitoral, talvez valha a pena fazer uma experiência simples: antes de compartilhar mais uma mensagem, antes de acreditar em mais uma promessa, antes de repetir mais uma acusação, leia algumas páginas de um bom livro.

Comece pela Apologia de Sócrates. Você encontrará ali um homem diante de uma sociedade dividida, defendendo não apenas a própria vida, mas o direito de continuar procurando a verdade.

Quase 2.500 anos depois, a pergunta permanece entre nós: Estamos preparados para escolher ou apenas estamos sendo escolhidos pelas ideias que alguém colocou em nossa cabeça? Talvez uma sociedade mais consciente não comece nas urnas.

Talvez comece nas páginas de um livro.