Jonathas Wagner

A COP30 foi bem maior do que se imagina

  • novembro 21, 2025
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A COP30 foi bem maior do que se imagina

Quem acompanhou os trabalhos e eventos da COP30, iniciada dia 10, em Belém do Pará, tanto pelas minhas colunas e vídeos, como pela grande mídia, não consegue mensurar o tamanho e importância deste evento, que mobilizou o mundo.
É certo que a grande Marcha do Clima, ocorrida no sábado, 15, “Dia dos Povos Indígenas na COP30”, foi uma importante demonstração da capacidade de mobilização em prol da proteção do planeta e da luta contra o aquecimento global. Mas mesmo esse evento dentro do evento, que reuniu mais de 30 mil pessoas nas ruas da capital paraense, não representa a imensidão e quantidades de frentes da conferência: seus debates, proposições e acordos.

Só pra se ter um ideia, em termos geográficos, podemos afirmar que além das imensas áreas (zonas Azul e Verde) com que o evento tem sido apresentado ao mundo (criadas justamente para abriga-lo), mais de 70% de toda a área urbana da capital do estado do Pará disponibilizou dispositivos voltados a discussões e encontros relacionados à COP. Sem contar alguns dispositivos que se encontram na área insular da cidade, como as Ilhas do Combu e do outeiro; esta última onde estiveram fundeados os dois transatlânticos, que abrigaram ativistas e cientista do clima de todo o planeta.

Além das mobilizações, manifestações e momentos de protestos registrados nas ruas, alguns tendo acontecido antes mesmo do início da COP (ainda na Cúpula do Clima – nos dias 6 e 7 de novembro), os palcos e espaços de discussões se espalharam por toda a cidade, cobrindo um raio de 12 quilômetros, partindo das docas e invadindo toda a área urbana de Belém.

A Marcha do dia 15 foi de fato um capítulo à parte na COP. Ela foi a síntese das manifestações da sociedade civil organizada a favor do debate climático e da preservação de territórios tradicionais. A caminhada foi organizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), pela Cúpula dos Povos e por outras entidades aliadas. Dela participaram atores e entidades vindos de diversas partes do Brasil e do mundo; indígenas, quilombolas, ribeirinhos, bordadeiras, quebradeiras de coco, coletivo de mulheres, atingidos por barragens, ativistas do clima dos cinco continentes, artistas e lideranças políticas. Todos, com suas vozes, gritaram pela urgência que os negociadores da COP30 precisavam ouvir e enxergar.

Distante dali, na Blue Zone, delegados do mundo inteiro dedicaram dez dias de trabalho intenso para consolidar e formatar o documento final da conferência, de onde constarão todas as decisões e acordos, compromissados e ratificados pelos chefes de estado durante a Cúpula do Clima, bem como o resultado das discussões ocorridas nas centenas de paineis que compuseram o grande evento.

A grandeza do evento não nos permite ver num primeiro momento a quantidade de assuntos que fizeram parte dessas discussões; a quantidade de debates que estiveram por trás das eventuais decisões e acordos advindos da COP30.
Alguns destes temas debatidos foram alvo do interesse da maior parte da grande mídia; outros, ora por desinteresse, ora por prioridade editorial, acabaram não chegando à população. Ou, se chegaram, chegaram com menos força.

Um desses casos foi o acordo costurado entre 15 governos e mais 300 parceiros da indústria em prol da proteção florestal, mas numa outra linha de abordagem do que a do aqucimento.
Neste caso, o grupo uniu forças sob os princípios para a “Construção com Madeira Responsável” (Principles for Responsible Timber Construction): o plano de “Aceleração Construindo para as Florestas” (Building for Forests Acceleration Plan), marcando a maior colaboração até hoje entre governos e a indústria para escalar o uso responsável da madeira.
A coalizão visa engajar 30 países em habitação com madeira sustentável até 2028, entregar produtos financeiros inovadores para pequenos proprietários, e alinhar a construção com madeira às estratégias nacionais de clima e florestas. Fazem parte desse grupo Canadá, Costa Rica, França, Alemanha, Japão, Quênia, Paquistão, República da Coreia, Suécia, Suíça, Reino Unido, Luxemburgo, Espanha, Nova Zelândia e Brasil.

Outro importante acordo ficou por conta da união de 17 países, que aderiram ao Desafio Azul NDC para avançar a integração e implementação de ações baseadas no oceano, garantindo que os compromissos se traduzam em políticas concretas, medidas e resultados tangíveis para a natureza e as pessoas.

E, é claro que não podemos deixar de fora o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), proposto pelo presidente Lula e que já arrecadou cerca de US$ 5,6 bilhões em promessas de investimentos e aportes de diversos países durante a COP30.
A meta inicial do fundo é alcançar US$ 10 bilhões em compromissos de investimento.
Entre os principais contribuintes e apoiadores estão o Brasil, a Noruega, a Alemanha e a França. Além destes, mais de 50 nações endossaram a declaração de lançamento.
O fundo, uma iniciativa brasileira, visa remunerar financeiramente os países que preservam suas florestas tropicais, com a meta de, a longo prazo, mobilizar até US$ 125 bilhões.

De uma coisa podemos ter certeza, dificilmente sairemos dessa COP com o mesmo espírito com o qual entramos: independentemente do tamanho do resultado ou da adesão aos acordos propostos, discutidos e/ou ratificados, nada será como antes. Na pior das hipóteses, o que fica é uma esperança terna de que algo pode realmente mudar. E que quando povos e governantes (pelo menos alguns) se dispõem a unir forças em prol da proteção da nossa casa (a Terra) alguma mudança – benéfica – tem o mais fértil dos campos pra florecer.