Luciano Augusto

Entre o Amor e o Medo: As Marcas Invisíveis da Violência em Leme

  • dezembro 19, 2025
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Entre o Amor e o Medo: As Marcas Invisíveis da Violência em Leme

A violência doméstica constitui um dos fenômenos sociais mais devastadores da contemporaneidade, justamente por se manifestar no espaço que, em tese, deveria oferecer proteção, afeto e estabilidade. Trata-se de um mal que não se limita às marcas visíveis no corpo, mas que se infiltra de maneira profunda e duradoura na subjetividade das vítimas. Entre os mais atingidos estão as crianças que, mesmo quando não sofrem agressões físicas diretas, tornam-se testemunhas silenciosas de conflitos, gritos, ameaças e agressões mútuas entre seus responsáveis legais. Esses episódios, muitas vezes naturalizados ou silenciados, moldam percepções de mundo, relações afetivas e noções de segurança que se estendem por toda a vida adulta. É nesse território sensível que se insere Leme, livro de estreia da escritora portuguesa Madalena Sá Fernandes.

A obra propõe uma reflexão íntima e dolorosa sobre os efeitos da violência doméstica, privilegiando menos o ato violento em si e mais suas reverberações emocionais e psicológicas. A narrativa acompanha Madalena, uma jovem que constrói sua memória familiar a partir de fragmentos contraditórios, marcados tanto pelo afeto quanto pelo medo. A relação com o padrasto, Paulo, é central nesse processo. Ele não surge como uma figura unidimensional, mas como um personagem atravessado por intensidades extremas: organizado, talentoso e, em certos momentos, afetuoso; em outros, imprevisível, agressivo e cruel. Essa oscilação constante cria um ambiente de instabilidade emocional que afeta profundamente todos ao seu redor.

Madalena vive, assim, um misto de recordações boas e más. Há memórias de tensão, de silêncio carregado e de medo iminente, mas também lembranças de momentos felizes, como os dias passados na praia, que parecem suspender, ainda que provisoriamente, a violência latente. Essa ambiguidade é um dos grandes méritos do livro, pois expõe como, em contextos de violência doméstica, o afeto e o terror podem coexistir de forma perturbadora, confundindo as vítimas e dificultando a ruptura com o agressor. Paulo “vive tudo em intensidade”: é excessivamente bom quando demonstra carinho e devastador quando se deixa dominar por seus rompantes de raiva.

A narrativa sugere que Paulo apresenta sérios sinais de transtorno bipolar, o que acrescenta uma camada de complexidade à obra. No entanto, Madalena Sá Fernandes conduz essa questão com rigor ético, deixando claro que o sofrimento psíquico não pode ser usado como justificativa para a violência. Ao fazer essa distinção, a autora evita a romantização do agressor e reforça a responsabilidade individual por atos violentos, mesmo quando há fatores clínicos envolvidos. Essa escolha narrativa contribui para um debate mais maduro sobre saúde mental e violência, recusando explicações simplistas ou complacentes.

Além de seu valor literário, Leme amplia o debate sobre a violência doméstica ao deslocá-lo do eixo exclusivamente brasileiro, frequentemente associado a esse problema, para evidenciar sua presença também em países europeus. A obra demonstra que a violência no âmbito familiar não é uma questão cultural isolada, mas um fenômeno estrutural, atravessado por relações de poder, silenciamento e normalização do abuso. Com uma escrita contida, sensível e profundamente humana, Madalena Sá Fernandes constrói um relato que incomoda justamente por sua honestidade emocional.

Leme é, portanto, uma estreia potente e necessária. Mais do que narrar uma história, o livro convida o leitor a refletir sobre as marcas invisíveis deixadas pela violência doméstica, especialmente nas crianças que crescem entre o amor e o medo. Essas marcas, ainda que silenciosas, continuam a orientar afetos, escolhas e modos de existir. O romance reafirma a literatura como espaço de denúncia, memória e resistência, capaz de iluminar realidades que insistem em permanecer à sombra.