Wilker Procópio

Já andou de Jet-ski?

  • março 27, 2026
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Já andou de Jet-ski?

Estamos nos aproximando das eleições e a segurança pública deve dominar os debates, uma vez que esse é o tema de maior importância para os brasileiros. E isso principalmente por causa do aumento da sensação de insegurança da população, impulsionada pela circulação constante de conteúdos policialescos nas redes, que amplificam casos de violência e reforçam a ideia de descontrole.

O roubo de celulares passou a ter impactos mais profundos na vida das vítimas, uma vez que dependemos dele para quase tudo, o que intensifica esse sentimento. Apesar disso, especialistas apontam que as respostas do poder público ainda são, em grande parte, imediatistas, focadas em ações visíveis como aumento de policiamento e equipamentos, que atuam mais na repressão do que na prevenção. Sem políticas estruturais de longo prazo, voltadas à investigação, inteligência e causas sociais da violência, essas medidas propagandeadas pela direita tendem a ter pouco efeito duradouro, mantendo o problema sem solução efetiva. Recentemente, o governo federal passou a focar no combate ao poder financeiro e na descapitalização de facções criminosas. O foco agora não é apenas prender membros de base, mas asfixiar a estrutura econômica dos líderes.

Essa diferença de visão é importante. Sentimos medo e isso nos faz querer, sim, mais viaturas e maior efetivo, mas isso não basta. É preciso mudar a estrutura, repito. E há uma outra estrutura que também carece de mais reflexão, a do nosso real lugar no mundo e daquilo que atravessa nosso cotidiano: trabalho e dinheiro. O trabalho é a atividade que mais ocupa nosso tempo. Já parou pra pensar se seu voto te traz benefícios nessa área? E na saúde e educação de seus filhos? Avanços nos direitos trabalhistas e sociais no Brasil como o 13º Salário, férias remuneradas, Jornada de 8 horas e outros foram impulsionados, em geral, por governos mais progressistas, que ampliaram garantias como saúde, educação e previdência. A direita apresenta reformas e projetos que tentam flexibilizar ou retirar conquistas históricas, sempre com o mesmo discurso: modernizar e gerar empregos. Prova disso é a Reforma da Previdência que, em 2019, sob Bolsonaro, extinguiu a aposentadoria apenas por tempo de contribuição, estabelecendo idades mínimas (62 anos mulheres/65 homens). Impactou o cálculo do benefício (média de 100% dos salários), tornando-o geralmente menor. Pode agradecer a quem se aposentou aos 33 anos, quando foi pra reserva, por você agora demorar mais pra se aposentar. Bolsonaro, aliás, recebe uma aposentadoria mensal de R$ 11.945,49 por ser capitão reformado. Ele entrou para o exército aos 17 anos e foi para a reserva em 1987.

Recentemente ocorreram na Argentina, protestos contra as reformas econômicas e trabalhistas do presidente Javier Milei, conhecidas como plano motosserra, com foco em cortes orçamentários, reforma trabalhista e redução de aposentadorias. Houve registros de manifestações, greves gerais e confrontos com a polícia, com forte adesão de sindicatos e, recentemente, de aposentados. Por aqui, as pessoas preferem enfrentar a polícia pra depredar prédio público em apoio a um malfadado golpe, liderado por quem lhes tornou mais difícil a aposentadoria e, portanto, mais penosa a velhice. O mesmo ser, quando perguntado se achava justo os pobres pagarem tantos impostos quanto os ricos, respondeu: zeramos o imposto de importação do jet-ski.

A consciência de classe é o modo de se fazer perceber que o trabalhador tem a força, por ser ele, justamente, a principal engrenagem da máquina produtiva. Se somos da classe trabalhadora, temos de saber exatamente o que historicamente devemos fazer, quais são os nossos interesses, qual posição tomar, que bandeiras defender. Sem consciência de classe, não há possibilidade de mudança da sociedade.