Podemos melhorar esses números
João Carlos
- outubro 30, 2025
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A Operação Contenção, uma megaoperação que envolveu mais de 2.500 agentes de diversas forças de segurança, realizada na terça-feira (28) nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio, teve como alvo lideranças do Comando Vermelho, deixou mais de 100 mortos, entre eles quatro policiais (dois civis e dois militares). Um deles, Rodrigo Velloso Cabral, de 34 anos, tinha apenas 63 dias de nomeação para o cargo. Outros 15 agentes ficaram feridos.
Estima-se que, pelo menos, 130 pessoas tenham morrido. Mais de 60 corpos foram retirados pelos próprios cidadãos de uma região de mata do Complexo da Penha durante toda a madrugada. Vários corpos apresentavam marcas de tiros na nuca e facadas nas costas, em claro sinal de execução. As fotos e os vídeos onde os corpos estão enfileirados são chocantes. Apesar disso, nas redes sociais, muita gente tem aplaudido e chamado a ação de “limpeza” ou em comentários como “podemos melhorar esses números”, em alusão à quantidade de mortos. E esse é o ponto. Enquanto muita gente comemora o fato de o estado entrar na favela para matar pobre, o mesmo estado que não garante o mínimo de dignidade para toda essa gente, diga-se de passagem, quem realmente financia o tráfico e lucra (muito) com ele, jamais estará deitado numa pilha de corpos como a que estampa noticiários por todo o país.
A operação resultou na prisão de 81 pessoas e retenção de 93 fuzis. Uma grande porcentagem dos fuzis apreendidos no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, é fabricada em outros países, como Estados Unidos, China e Suíça. Esses armamentos entram ilegalmente no país por diversas vias, como caminhões, barcos e contêineres. O crime organizado se aproveita da flexibilização nas políticas de controle de armas para desviar armamentos de atiradores desportivos (CACs) para o mercado ilegal. Laranjas adquirem arsenais legalmente para repassá-los a facções e milícias. Repito: quem estava morto, sem camisa, no meio da pilha de corpos, dificilmente controla essa engrenagem. Podar os galhos pode até contribuir para que a vista melhore, mas se quiser cortar, é pela raiz.
Em tempos de polarização política e crise econômica, ter consciência de classe é urgente. Ela permite interpretar discursos, identificar interesses reais e compreender como desigualdade, poder e exploração se entrelaçam. Ignorá-la significa aceitar que poucos concentrem riqueza e poder enquanto a maioria luta para sobreviver.
No Brasil contemporâneo, menos de 1% da população concentra quase 30% da renda nacional, enquanto milhões vivem com menos de um salário mínimo. Essa desigualdade não é fruto do acaso, mas de decisões políticas, econômicas e sociais que favorecem uma minoria enquanto exploram a maioria. A concentração de renda se reflete em múltiplas dimensões: acesso à educação de qualidade, saúde, transporte, segurança, moradia e mobilidade social. Esses números, sim, deveriam melhorar.





