Quando quem escreve o livro encontra quem vive a história
João Carlos
- agosto 24, 2026
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Há livros que compramos, lemos e guardamos. Há outros que, quase sem percebermos, passam a fazer parte da rotina de uma família. Ficam sobre a mesa, aparecem dentro da mochila, acompanham as tarefas de casa e chegam até nós pelas mãos dos nossos filhos.
Foi assim que Isabella Carpaneda entrou em nossa casa antes mesmo de a conhecermos.
Seu nome já estava ali, impresso na capa do Porta Aberta, livro utilizado por nossa filha na escola. Para ela, talvez fosse simplesmente “o livro da escola”. Para nós, pais e educadores, havia também a curiosidade de quem conhece o outro lado dessa história: antes de um livro chegar às mãos de uma criança, alguém precisou imaginar, pesquisar, escrever, escolher palavras, organizar conhecimentos e pensar em como conversar com aquele pequeno leitor.
Recentemente, tivemos a oportunidade de encontrar pessoalmente Isabella Carpaneda.
E aquele encontro aparentemente simples me provocou uma reflexão.
Quantas pessoas participam da educação de uma criança sem jamais entrarem em sua sala de aula?
Pensamos imediatamente nos professores, e é justo que seja assim. Mas há também autores, ilustradores, pesquisadores, editores e tantos outros profissionais que ajudam a construir os materiais que diariamente circulam pelas escolas brasileiras.
Um livro didático não é apenas um conjunto de páginas que precisa ser “vencido” durante o ano letivo. Quando utilizado com intencionalidade pelo professor, ele pode ser uma porta. Porta para uma pergunta. Para uma descoberta. Para uma conversa em família. Para uma palavra que a criança finalmente consegue ler sozinha.
Talvez por isso o título tenha adquirido, para mim, naquele encontro, um significado ainda mais bonito. Educar é, de alguma maneira, abrir portas.
A família abre algumas. A escola abre outras. Os professores abrem inúmeras. Os livros também.
E uma das coisas mais bonitas da educação é perceber que essas portas não precisam levar todas ao mesmo lugar. Algumas conduzem à leitura. Outras à curiosidade, à imaginação, à ciência, à arte, ao pensamento crítico ou simplesmente ao prazer de descobrir alguma coisa que até ontem não se sabia.
Como pai, foi especial estar diante da autora de um livro que hoje participa de uma pequena parte da infância da minha filha.
Como educadores, foi igualmente significativo reconhecer, naquele encontro, a dimensão humana que existe por trás dos materiais que utilizamos diariamente nas escolas.
Às vezes falamos tanto de currículo, habilidades, avaliações, metodologias e resultados que corremos o risco de esquecer uma verdade elementar: a educação acontece entre pessoas.
Há uma pessoa que escreve.
Outra que ensina.
Uma criança que pergunta.
Uma família que acompanha.
E, quando tudo isso se encontra, o conhecimento deixa de ser apenas conteúdo e começa a se transformar em experiência.
Daqui a alguns anos, provavelmente este livro não estará mais na mochila da nossa filha. Outros livros ocuparão aquele espaço. Virão novas professoras, novos conteúdos, novas perguntas e novos desafios.
Mas gosto de pensar que alguma palavra, alguma atividade, alguma imagem ou alguma descoberta feita nessas páginas permanecerá.
Porque essa é uma das características mais extraordinárias da educação: muitas vezes não sabemos exatamente qual aprendizagem ficará.
Sabemos apenas que continuamos oferecendo portas.
E torcendo para que nossas crianças tenham sempre coragem, curiosidade e boas companhias para atravessá-las.





