Geraldo Evangelista e Helena Evangelista

Pedagogia da ancestralidade – memória e os saberes que atravessam gerações

  • setembro 21, 2026
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Pedagogia da ancestralidade – memória e os saberes que atravessam gerações

Há conhecimentos que nunca foram escritos no quadro. Foram aprendidos na cozinha, no quintal, ao redor da mesa ou enquanto alguém mais velho contava, pela centésima vez, uma história que todos já conheciam. Talvez porque algumas histórias não sejam contadas apenas para informar. Elas nos dizem quem somos.

Costumamos associar educação à escola. Mas nossa aprendizagem começa muito antes do primeiro caderno, da primeira professora e da primeira carteira escolar. Aprendemos também com aqueles que chegaram antes de nós.

É nesse território que encontramos a Pedagogia da Ancestralidade. Falar de ancestralidade não é simplesmente olhar para o passado com saudade. É reconhecer que nenhum de nós começa em si mesmo. Antes de nós houve pessoas, histórias, lutas, conhecimentos e diferentes maneiras de cuidar, brincar, cozinhar, cantar, trabalhar e compreender o mundo.

Essa perspectiva nos convida a ampliar aquilo que reconhecemos como conhecimento. A oralidade, as memórias, as histórias de vida e os saberes transmitidos entre gerações também educam. É uma discussão que encontra raízes importantes na valorização dos saberes afro-brasileiros e indígenas, tantas vezes silenciados ao longo de nossa história.

Talvez exista uma imagem simples para compreender tudo isso: nossos mais velhos também são bibliotecas. Bibliotecas vivas.

Quando uma avó ensina uma receita que aprendeu com sua mãe, não transmite apenas ingredientes e medidas. Há uma história atravessando aquela panela. Quando um avô ensina uma brincadeira de infância, um pedaço de outro tempo acaba de chegar ao presente.

E existe um paradoxo curioso. Nunca registramos tanto. Fotografamos aniversários, viagens, refeições e acontecimentos cotidianos. Guardamos milhares de imagens. Mas será que estamos perguntando o suficiente?

“Vó, como era sua infância?” “Vô, do que você brincava?” “Quem lhe ensinou isso?” “Qual história você gostaria que eu nunca esquecesse?”

Talvez estejamos acumulando fotografias enquanto algumas histórias desaparecem silenciosamente.

A escola pode ajudar a mudar isso. Entrevistar pessoas mais velhas, pesquisar brincadeiras de outras gerações, conhecer receitas familiares, cantigas, fotografias e histórias da comunidade são possibilidades de construir pontes entre o conhecimento escolar e os saberes que atravessam gerações. E, nesse movimento, a criança descobre algo importante: sua história não começou no dia em que nasceu.

Foi também desse lugar de memória, afeto e pertencimento que nasceu Vóvelina, livro que será lançado em breve pela Editora Casa Casulo Educação. Uma história sobre vínculos, lembranças e aquilo que os mais velhos deixam nas crianças, muitas vezes sem perceber.

Escrever Vóvelina foi, de alguma maneira, uma tentativa de guardar. Mas não guardar para prender o passado. Guardar para fazê-lo caminhar. Porque uma memória contada a uma criança ganha outra casa, outra voz e outra possibilidade de continuar existindo.

Existem conhecimentos que aprendemos. Existem conhecimentos que construímos. E existem conhecimentos que herdamos.

Talvez educar também seja isso: ajudar uma criança a descobrir que sua história não começou quando ela nasceu.