Proletários de todos os países, uni-vos!
João Carlos
- maio 5, 2026
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Com a iminência de mais um Dia do Trabalhador, data aliás muito importante em Nova Serrana, é inevitável discutirmos o fim da escala 6×1. Vamos por partes: A escala 6×1 é um regime em que o trabalhador atua seis dias seguidos e folga um. É muito comum em comércio, supermercados, indústrias e serviços essenciais. Na prática, significa apenas quatro folgas por mês, o que gera desgaste acumulado. Sobra pouco tempo para o trabalhador viver fora do ambiente de trabalho. E sabemos que esse trabalhador tem serviço de casa, necessidade de descanso e lazer. Muitas vezes esse mesmo trabalhador estuda no tempo livre e, na maioria das vezes, tem uma família com a qual não consegue passar tempo de qualidade. Na escala 5×2 o tempo já é majoritariamente consumido pelo trabalho. Na 6×1, isso é pior.
E por que discutir isso agora? Simplesmente porque passamos por uma pandemia que redefiniu muitas coisas em nosso comportamento, desde o crescimento do home-office até o boom das plataformas de compras on-line. Parte desse impacto foi psicológico. No auge da pandemia, o mundo registrou um aumento de cerca de 25% nos casos de ansiedade e depressão, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). E os casos de adoecimento associado ao trabalho vem piorando. E isso aconteceria com ou sem pandemia, devido a carga de trabalho e ao poco tempo para descanso. Os afastamentos por transtornos mentais passaram de cerca de 200 mil em 2020 para mais de 470 mil em 2024 e chegaram a 546 mil em 2025, segundo dados da Previdência Social. Ao mesmo tempo, pesquisas indicam uma mudança na percepção dos trabalhadores sobre equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Em 2018, só 18% dos brasileiros viam saúde mental como principal problema. Após a pandemia, esse número subiu para mais de 50%. Isso pode ser explicado porque durante a pandemia, parte da população trabalhou de casa, teve mais tempo com família, reduziu deslocamentos ou jornadas. Houve uma quebra de rotina, na qual ficou mais evidente o peso de jornadas intensas.
Mas esse movimento não é exclusivo do Brasil, que aliás, só tenta acompanhar uma tendência mundial. Islândia, Bélgica, França, México, Chile e Portugal já reduziram a jornada de trabalho, adotando modelos como semana de 4 dias ou 40 horas semanais, focando em produtividade e bem-estar. Estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) revelam que países com jornadas menores, como Alemanha e Dinamarca, têm produtividade por hora maior que países com jornadas longas. Na prática, isso significa que trabalhar mais dias não é produzir mais ou melhor. Em um cenário marcado pelo aumento do adoecimento mental, pela precarização das relações de trabalho (também chamada uberização) e pela naturalização da exaustão, discutir a jornada é discutir o modelo de desenvolvimento que se pretende sustentar. Defender o fim da escala 6×1 é, portanto, defender o direito do trabalhador ao tempo. De um lado, setores do empresariado resistem a mudanças para não reduzir margens de lucro ou reestruturar operações; de outro, trabalhadores que arcam com o desgaste de seis dias seguidos de trabalho e pouco tempo de descanso. No fundo trata-se de decidir se o peso da economia continua recaindo sobre o tempo e o corpo de quem trabalha ou se parte desse custo será absorvido pelas empresas.





