Breno silva

Uma denúncia, uma polêmica e as mochilas

  • maio 5, 2026
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Uma denúncia, uma polêmica e as mochilas

Abril é o mês da Páscoa e do renascimento de Jesus. É também o mês da Inconfidência Mineira, celebrada pelo feriado de Tiradentes, que representa um símbolo histórico de luta pela liberdade. E, neste ano de 2026, abril foi marcado também pela grande polêmica das mochilas escolares distribuídas na rede municipal de educação de Nova Serrana.

Uma polêmica que envolveu a qualidade do material entregue, o valor pago e a indignação dos pais e de uma parte da população, que se revoltou frente à incoerência entre o preço e o produto.

Hoje, trago uma denúncia para que possamos parar e pensar. Algo que talvez exista nas profundezas dessa revolta.

O reflexo. O reflexo do espelho que nos incomoda.

Sobre a polêmica das mochilas: parte do descontentamento se deu pela possibilidade de desperdício do dinheiro público, o que é uma preocupação muito válida e que foi prontamente resolvida em razão da denúncia realizada. Os agentes públicos devem, sim, tratar com extremo zelo e responsabilidade a forma como investem o dinheiro da população. Até aqui, tudo bem.

No entanto, hoje quero trazer uma denúncia que se relaciona diretamente com essa questão do desperdício, mas que muitas vezes fechamos os olhos para não ver, pois não queremos nos responsabilizar ou achamos que “é normal!”.

Com alguma frequência, vejo alunos nas escolas derrubando comida no chão, sujando o pátio e a cantina, ou até mesmo rasgando e jogando cadernos pelas vias públicas ao final do ano letivo, um comportamento que nos lembra, inclusive, a atitude lamentável de candidatos espalhando santinhos pelas ruas em dia de eleição.

Todas essas atitudes também refletem o desperdício. Um desperdício do mesmo dinheiro público que custeou as mochilas, mas que raramente é percebido, denunciado, e que, na maioria das vezes, é normalizado. Porém, a limpeza do pátio, a varrição das ruas cobertas de papel e a manutenção das carteiras quebradas também saem do nosso bolso.

Diante desse desperdício diário, silencioso e contínuo, não vemos denúncias. Não vemos revolta. Vemos a perigosa aceitação de que “criança é assim mesmo”, de que “o faxineiro limpa depois”, ou o famoso “sempre foi assim”.

Nós nos revoltamos quando o dinheiro público parece mal utilizado (e com razão!), mas, ao mesmo tempo, quantas vezes tratamos aquilo que é público como se não fosse de ninguém (como as praças e os parquinhos, por exemplo)?

Existe uma incoerência sutil, mas profunda: exigimos responsabilidade de quem administra, mas nem sempre exercemos a nossa própria responsabilidade sobre aquilo que utilizamos.

A denúncia sobre as mochilas foi importante, mas ela perde a força quando não atravessa o espelho e não nos faz refletir sobre nossas próprias responsabilidades públicas no cotidiano.

Abril nos fala de renascimento, luta, independência e liberdade. Mas não existe renascimento sem confronto. Liberdade não é apenas cobrar, é também cuidar.